sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Como pensar em um teste bechdel para a academia?


Ano passado ao me deparar com o teste bechdel, fiquei pensando em como perceber a representação das mulheres em outros espaços, como na academia... Mas ao tentar problematizar isto, percebi que poucas pessoas conhecem o teste de bechdel.

The Rule, Alison Bechdel
Em 1985 a escritora e quadrinista estadunidense Alison Bechdel publicou uma tirinha chamada “The Rule”, em português “a regra”. Tal tirinha trazia duas mulheres que podem ser lidas com fenótipos étnicos distintos, que passeiam juntas e se deslocam pela frente de um cinema, com os filmes que estão em cartaz ao fundo. (tirinha lado) 

A mulher com cabelo mais longo pergunta a outra mulher se ela quer ver um filme. Então a mulher com cabelo mais curto diz que ela tem uma regra para ver filmes, que consiste em três requisitos: “primeiro, é preciso ter pelo menos duas mulheres nele que, segundo, conversem entre si sobre, e terceiro, algo além de um homem” (tradução minha).

A mulher de cabelo mais longo fala que seria muito restrito, mas uma boa ideia. Então a mulher de cabelo mais curto responde que não está brincando e o último filme que viu foi Alien, pois tem duas mulheres conversando sobre um monstro. As duas mulheres ficam cabisbaixas e silenciosas enquanto continuam andando até que fica entendido que elas não vão tentar assistir nada aquele dia no cinema.
 
A crítica de Alison Bechdel foi tão sintomática do cenário cinematográfico (tanto do período, quanto de hoje), que sua tirinha começou a ser ressignificada (principalmente por críticos de cinema) como um teste para apontar a presença, frequência, importância e representação de mulheres em filmes.

Esta avaliação foi intitulada de: Bechdel Test, em inglês, ou Teste de Bechdel, em português. Dessa forma o teste de bechdel pretende avaliar se um filme passa nestes três requesitos (há variações, mas é mais ou menos isto):

1º Há pelo menos duas mulheres no enredo?

2° As mulheres do filme conversam entre si?

3° Se elas conversam entre si, elas conversam sobre algo que não seja um homem?

Acredite, muitos filmes não passam no teste de bechdel, como Toy Story, Forrest Gump, 500 dias com ela... O teste de bechdel aponta as redes das mulheres entre outras coisas. Podemos inferir poucas coisas dele, além de perceber como em vários filmes as mulheres são reduzidas a falaram sobre um homem, ou a interagirem com homens. Questões que acirram o imaginário de competição feminina e enfraquecem a ideia de sororidade por exemplo.

Mas voltando a questão que eu coloquei no começo deste texto, como avaliar a representação das mulheres em outros espaços, como na academia? Seria possível pensar em um teste de bechdel para a vida acadêmica

Bom, eu ainda não conheço nenhum teste e também não tenho nenhuma sugestão concreta de avaliar isto. Contudo, o teste de bechdel é provocativo para imaginarmos formas de perceber não só a representação, mas até mesmo a presença das mulheres em diversos espaços. Neste sentido, uma coisa que tenho achado interessante observar: quantas mulheres são citadas em textos, quantas mulheres estão em referências bibliográficas  e etc... 

Sabemos que os clássicos de diversas disciplinas são homens brancos, então, também é interessante pensar quantas mulheres não brancas, não europeias, não americanas, brasileiras, negras, indígenas estão chegando em nossas estantes?
 
Bom, pensando nisto. Eu e a minha amiga Stéfane no começo deste ano nos reunimos diversas sextas pelo hangouts, ou skype para realizarmos discussões de textos escritos por mulheres, para estes encontros virtuais demos o nome de LAM (leituras de antropólogas mulheres). Entretanto, pela rotina da vida, não conseguimos prosseguir com o LAM. Contudo, trago este relato, para deixar a ideia para outras pessoas. 


Eu a Stéfane, selecionamos mulheres que gostaríamos de ler (e entender) como a Marilyn Strathern. Liamos o texto previamente, e depois nos encontrávamos virtualmente para discutir o texto. Digo isto, pois qualquer pessoa pode procurar as autoras e ler, ao mesmo tempo que também pode procurar/encontrar outras pessoas que se interessam também e trocar ideias.


Finalizando, eu não tenho uma sugestão de um teste de bechdel para a academia. Talvez um teste, ou algo do tipo, não seja pertinente. Mas o teste de bechdel é ótimo para pensar... É um excelente gatilho para refletir sobre a participação de mulheres em qualquer espaço.  

Você conhece muitas mulheres dentro da sua área? Antropólogas? Escritoras? E Etc?

1° PS:  Para entender melhor o teste de bechdel, recomendo um vídeo da Lully clique aqui para ver
2° PS: Para pensar mais sobre os problemas da má representação das mulheres no cinema, recomendo o trailer da “personagem feminina pouco desenvolvida”, clique aqui para ver
3° PS: Sobre as mulheres em outros espaços, deixo a recomendação para ouvir o CD “A Arte da Refutação” da Issa Paz. Dentre váriosassuntos abordados por ela, ela fala do machismo no Rap, clique aqui para ouvir uma música.
4° A primeira figura do post é a tirinha da Alison Bechdel e a segunda figura são imãs da minha geladeira. Percebi que em nenhuma imagem deste imãs têm duas mulheres na mesma figura. 
5° PS: Sugestões, críticas, comentários e/ou respostas podem ser enviadas para o meu e-mail: artesanatointelectual@gmail.com