sábado, 15 de outubro de 2016

Antropologia ou teoria vivida e aprendida


Ou a importância de reler o mesmo texto em momentos distintos da formação

 
Na primeira vez que eu li “Etnografia, ou a teoria vivida” da Mariza Peirano eu não entendi muito bem. Não porque o texto seja difícil de ler e compreender (pelo contrário acho o texto de fácil leitura), mas talvez porque eu ainda não soubesse “mesmo” o que era uma etnografia... Digo isto, pois já reli este texto várias vezes, inclusive uma esta semana, e quanto mais a frente estou no curso, mais a “etnografia, ou teoria vivida” faz sentido.



Bom, este já era um assunto que me instigava em 2013 (2° de 2013), quando eu fiz TA2 (Teoria Antropológica 2). Fiz a disciplina com o professor Luís Cayon e no segundo trabalho da disciplina (que foi composta por três ensaios, se não me engano) relacionei “estrutura e corpo” em um ensaio denominado “Habitus e trabalho de campo: um breve ensaio” relacionando Leach, Dumont e Bourdieu. 

Um dos grandes desafios da antropóloga em campo pode ser explicar o que é antropologia. Em geral, para a própria antropóloga, está não é uma categoria simplesmente dada pelo senso comum, e sim uma categoria construída durante sua formação. A antropologia pode parecer um grande axioma quando se faz a matéria de introdução, por exemplo. E durante algum tempo, talvez uma sensação de “sei o que é, mas não sei definir” acompanhe a aluna. Mas ao decorrer do curso, quando ela fizer as disciplinas de Teoria Antropológica e Métodos e Técnicas, as coisas provavelmente vão se tornando mais inteligíveis. Entretanto voltando ao campo, também, pode soar muito arrogante reduzir todo esse aprendizado e dizer: “antropologia é isso”. E simplesmente dar uma definição qualquer, por mais elaborada ou simples que seja é problemático, pois nós mesmos não costumamos entender tão facilmente assim; então será que as pessoas de fora do campo vão entender? (Primeiro parágrafo do meu trabalho de TA2, com adaptações de linguagem inclusiva de gênero)


Lendo este curto trabalho (de apenas quatro páginas) hoje, eu observo que eu pretendia analisar como as experiências práticas e as vivências dentro do curso de antropologia promoviam um aperfeiçoamento “teórico” ou uma maior compreensão da teoria, que ocasionava uma maior percepção da antropologia como disciplina. E como Peirano observa em sua palestra¹ as ideias não surgem do nada, as ideias estão relacionadas com experiências…



Não por acaso, no semestre anterior, no 1° de 2013 eu tinha acabado de fazer Métodos e Técnicas em Antropologia Social (MTAS) com a professora Soraya Fleischer e foi o exatamente neste contexto que eu li pela primeira vez “Etnografia ou teoria vivida”. Lemos (eu e a turma) este texto bem no inicio da disciplina , ainda sem realizar a primeira saída de campo. Ressalto isto, pois creio que ao final da disciplina, minha relação com o texto, e também minha relações com a antropologia e com a etnografia, já eram completamente diferente e devo isto aos exercícios etnográficos realizados no semestre.


Não vou falar muito sobre MTAS neste texto, porque merece um outro texto. Principalmente porque a combinação de MTAS com a disciplina de Antropologia Econômica (ofertada pela Kelly Silva no 2°2013), foram o plot twist ou a epifania da minha formação. Plot twist, no sentido de narrativa fílmica, que é quando há uma mudança radical que direciona o final do filme. E epifania, no sentido literário de terceira geração modernista, quando a personagem tem uma espécie de revelação.

Mas recomendo a leitura na integra de Na cozinha da pesquisa: relato de experiência na disciplina “Métodos e Técnicas em Antropologia Social” texto que acabou de sair do forno! Escrito pela Fabiene Gama e Soraya Fleischer:


Além disso, no momento de MTAS, a maioria das estudantes só teve contato com disciplinas teóricas, em que leram sobre a história da Antropologia e a intensa autorrevisão feita pela área. Chegam muito afiadas, com críticas disparadas facilmente para todo lado, mas também chegam desconstruídas, desencantadas, perdidas, cheias de cuidados para não deslizarem e serem acusadas de etnocêntricas, imperialistas e/ou neocolonialistas. A maioria nunca fez pesquisa, nunca entrevistou uma pessoa, nunca abordou alguém para uma conversa. Ou seja, vêm com alguma bagagem conceitual, mas não sabem como produzir antropologia. Ao propormos algo mais prático, sentimos no início certo desconforto por parte da turma. Como se aquilo que não fosse teórico não pudesse ser legítimo; como se aquilo que não fosse produzido alhures (e, de preferência, além-mar) não pudesse ser suficiente; como se aquilo que fosse produzido por uma colega da carteira ao lado não pudesse ser conhecimento; como se aquilo que fosse produzido pelo corpo (que anda, olha, é olhado, sente etc.) e não pela linguagem verbal e escrita fosse menor. Fomos percebendo, à medida que a disciplina avançava, que partir para a prática, discutindo de modo muito singelo técnicas de pesquisa, poderia ser uma ferramenta potente para desconstruir certezas. Ao menos permitir que algumas balizas pudessem ser testadas e construídas para uso futuro. (GAMA & FLEISCHER, 2016: 112)


Eu não creio que tardar a leitura de “etnografia ou teoria vivida” seria interessante. Pois creio que exatamente o fato de não ter entendido direito na primeira leitura já acionou um “instinto etnográfico” (PEIRANO, 2014:378), afinal eu entendi tudo que estava escrito, todavia não compreendia o que tudo aquilo significava, ao mesmo tempo que tinha uma grande vontade de perceber o que o texto comunicava.


Esses sentimentos, sabem bem os alunos de graduação que fazem pesquisa, nos acometem, nos assaltam no momento em que definimos, para nós mesmos, que estamos “em campo”. O “campo”, portanto, não está lá; ele está dentro de nós, e se as surpresas nos parecem, às vezes, meros acasos, é que deles é feita a vida. Muitas vezes, inclusive, somos surpreendidos pelo fato de que a vida parece imitar a teoria (…) (PEIRANO, 2008 : 04)


Ao mesmo tempo que não podemos (e não devemos) separar etnografia e teoria, afinal “etnografia não é método, toda etnografia é também teoria” (PEIRANO, 2014;383). Esta semana tenho pensado em como não podemos separar Antropologia e prática etnografia (dentro da formação, seja na graduação ou em outro estágio).



No sentido de que entender o que é Antropologia pode ser muito mais do que apreender um conceito, porque entender algumas categorias nativas ou analíticas e teorias passam pelo corpo, pela vivência: “desta perspectiva, etnografia não é apenas um método, mas uma forma de ver e ouvir, uma maneira de interpretar, uma perspectiva analítica, a própria teoria em ação” (PEIRANO,2008:3)



Talvez até aqui não haja nada de novo em si para o conhecimento antropológico, afinal a própria Mariza Peirano já disse “(…) como todos sabemos, a etnografia é a ideia-mãe da antropologia, ou seja não há antropologia sem pesquisa empírica” (2014:380). Entretanto nunca me falaram que o curso de antropologia, ou melhor a minha formação em antropologia seria completamente redimensionada e ressignificada depois de cursar a disciplina de MTAS.

Assim como ela foi redimensionada e ressignificada em graus distintos em cada disciplina que cursei. Desde Introdução a Antropologia, a Teoria Antropológica 1 e 2. Estas matérias não se resumem as leituras, ou as aulas, mas abrangem também as professoras, as colegas de turma e até na minha atenção a todos estes fatores. Assim como também inclui releituras de textos, anotações, comentários e diálogos.

Entretanto talvez existam duas dimensões (devem existir bem mais) de realize o texto "etnografia ou teoria vivida". Realize como algo entre perceber e compreender, algo que em português poderia ser bem traduzido, como diria o Raoni Giraldin como “se tocar de algo”, no sentido “me toquei sobre tal assunto”. Uma gíria que já foi aprendida pelo português formal, e que denota, segundo a 25º definição do verbo tocar para o dicionário michaelis on-line, “dar se conta de”.

Talvez Mariza Peirano tenha escrito este textos para suas colegas pesquisadoras, já formadas, ou em estágio mais a frente da vida acadêmica. E para este público talvez o texto realize a desconstruir a ideia de que teoria seja mais importante que a etnografia. Sabemos (eu e você leitora) que  está é uma noção forte dentro da acadêmia, afinal (sem querer criar um sofisma) se não fosse forte, como alunas de começo do curso reproduziriam ideias de que teoria é mais importante que etnografia?

Neste sentido, a “Etnografia ou teoria vivida” é incrível por conseguir plantar a semente da desconstrução de que teoria e etnografia sejam algo distinto ou distante. E é extremamente necessária para que percebamos a experiência pesquisa como fundamental para experiência de escrita e de apresentação de resultado... Entre outras questões.

Mas a outra realizing possível de “Etnografia ou teoria vivida” para as alunas que ainda estão em formação e ainda estão construindo suas referências teóricas-metódologicas é que a etnografia é uma teoria vivida e aprendida. E que por tabela a antropologia também é uma teoria vivida e aprendida. Pois estamos aprendendo que etnografia é a teoria vivida ao mesmo tempo que estamos aprendendo a fazer etnografia, concomitante ao aprendizado de fazer antropologia e do aprendizado do que é Antropologia..

Bom, creio que talvez seja por isto que não entendemos muitos textos (não todos claro, alguns são mérito da autoria complicada) na primeira leitura. Também suspeito que fazer  MTAS pode mudar sua percepção sobre a Antropologia.

Este conjunto de postagem até agora no blog pode ser entendidas como “reflexões de uma graduada” ².

Notas:
1 Vídeo “A etnografia na trajetória de Mariza Peirano”. Neste vídeo de aproximadamente 50 minutos a Mariza Peirano fala de relação com as ciências sociais desde a graduação até hoje, recomendo bastante! Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zWGHwPJaFRo
2 Em 2013, Otávio Velho fez uma apresentação nos Seminários do DAN intitulada “Reflexões de um aposentado”, seminário qual eu fiquei bem frustrada por não entender nada do que ele disse. Neste caso, eu não sei se foi falta de experiência etnografia ou arcabouço teórico para entender, não pude rever a comunicação hoje em dia para repensar isto. Nesta época infelizmente os Seminários do DAN ainda não eram gravados e disponibilizados pelo canal do IRIS no youtube.

Referências Bibliográficas:
2016. Fabiene Gama e Soraya Fleischer. Na cozinha da pesquisa: relato de experiência na disciplina “Métodos e Técnicas em Antropologia Social”. Cadernos de Arte e Antropologia, Vol. 5, No 2 |-1, 109-127. Disponível em: http://cadernosaa.revues.org/1145#quotation
2008. Mariza Peirano. “Etnografia ou a teoria vivida”. Revista Ponto Urbe, 2(2), pp.1-10 Disponível em: https://pontourbe.revues.org/1890
2014. Mariza Peirano. Etnografia não é Método. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 20, n. 42, p. 377-391, jul./dez. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832014000200015


1 PS : Fiz está colagem com massinha e o texto impresso com fontes de tamanhos diferentes. Coloquei o post it, para indicar que este poema foi escrito para ser epígrafe desta reflexão. Foto tirada de celular (assim como propõe mosaico lunar) e poema escrito por mim.
2 PS : Hoje é dia das professoras! Então eu gostaria de parabenizar todas as professoras que me deram aula e também todas as professoras que eu conheço! Além de agradecer por toda a dedicação e inspiração! Neste sentido, gostaria de ressaltar a importância das professoras da graduação!
3 PS: Sugestões, críticas, comentários, ou se você quiser me enviar um e-mail : artesanatointelectual@gmail.com
4  PS: Parece que o espaçamento do blogspot é meio aleatório. Há uma diferença entre o que eu mando e o que aparece visível.Estas letras do ps também, não estou conseguindo torná-las maiores para na publicação.